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Aposentadoria precoce da n° 1 do tênis reacende discussão sobre saúde mental de atletas

Por: Maria Paula Carvalho - Rádio França Internacional



Aos 25 anos e já aposentada. A australiana Ashleigh Barty, número 1 do ranking da WTA, surpreendeu o mundo ao anunciar que não disputaria mais partidas do tênis profissional. Depois de vencer 15 títulos de simples, sendo três de Grand Slam - o Aberto da França em 2019, Wimbledon em 2021 e o Aberto da Austrália, este ano - ela confessou estar exausta. O anúncio chama atenção para dificuldades físicas e psicológicas de outros atletas profissionais.

“Eu não tenho mais a disposição física, emocional e tudo o que é necessário para você se desafiar no mais alto nível”, revelou Barty na despedida. Burnout? Depressão? Logo surgiram muitas interpretações para a decisão. O psicólogo francês especializado em esporte Makis Chamalidis aponta a conjuntura atual. “Podemos dizer que, hoje em dia, manter-se no topo com tudo o que vivemos, como a epidemia de Covid-19, o confinamento e todo o desgaste, consome muita energia e visivelmente isso não é mais uma prioridade para a atleta”, observa. Numa mensagem de vídeo em que aparece chorosa ao lado da amiga e ex-parceira de duplas Casey Dellacqua, Barty agradeceu por tudo o que viveu nas quadras. “Estou tão feliz, realizada e, no meu coração, sei que isso é o certo. Estou muito agradecida por tudo o que o tênis me deu, todos os meus sonhos e mais. Mas sei que agora é a hora certa para eu me afastar e perseguir outros sonhos e largar as raquetes", concluiu. Com o título histórico em Roland Garros, Barty se tornou a primeira australiana número 1 do mundo desde Evonne Goolagong-Cawley, que chegou ao topo em 1971. O mundo do tênis recebeu a notícia de sua aposentadoria precoce com surpresa. "Obrigada por ser uma embaixadora incrível para este esporte e para as mulheres em todo o mundo", tuitou a WTA. "Nós vamos sentir tanto a sua falta, Ash". "Parabéns pela carreira incrível, Ash. Foi um privilégio dividir a quadra com você", escreveu a tcheca Karolina Pliskova, derrotada por Barty na final de Wimbledon, no ano passado. "Minha amiga, sentirei a sua falta no circuito. Você era especial e compartilhamos momentos incríveis", publicou, no Twitter, a romena Simona Halep, ex-número 1 do mundo. "Seja feliz e aproveite sua vida ao máximo". "Feliz por Barty, triste pelo tênis", comentou, em sua rede social, o britânico Andy Murray. O fenômeno, no entanto, não é novo. Em 2008, a tenista belga Justine Henin anunciou, em uma conferência de imprensa, que se retirava do circuito profissional de maneira definitiva e irrevogável. Era a primeira vez que uma tenista encerrava sua carreira enquanto número 1 mundial. Ao se retirar das quadras, a atleta acumulava 5.695 pontos na classificação da WTA. A segunda colocada, Maria Sharapova, tinha, então, 3.986. “É o atleta que decide o seu ritmo de vida. Às vezes, é melhor parar no auge do que jogar dois ou três anos a mais. O importante é que seja uma decisão bem pensada e amadurecida”, completa Makis Chamalidis.

Desgaste físico faz parte da rotina de atletas profissionais Com experiência de quem já foi jogadora de futebol e médica da seleção brasileira feminina militar, duas vezes campeã mundial, a ortopedista carioca Daniela Hauila diz não ter se surpreendido com a decisão da tenista Ashleigh Barty. “O cansaço é físico e mental. Ela começou a jogar aos 7, 8 anos de idade, então, tem uma carreira de quase 20 anos. E esporte é abnegação, rotina e sobrecarga física. Não existe esportista de alto rendimento que não tenha dor”, explica a médica do esporte. “Como ela chegou ao topo no tênis, ela se achou no direito, provavelmente, de dizer que já tinha dado tudo para o esporte e queria se dedicar para si mesma”, avalia. “Acordar todos os dias as 5 horas da manhã, ter uma rotina que as pessoas julgam saudável, mas que não traz saúde para o corpo porque você está sobrecarregando o corpo, que é utilizado ao máximo, não me surpreende a pessoa querer sair disso”, acrescenta. Com passagem pelo clube Vasco da Gama e atualmente coordenadora do departamento médico do Botafogo, ambos do Rio de Janeiro, Daniela Hauila explica que o desafio da medicina do esporte é evitar lesões pelo desgaste inevitável. “A medicina do exporte preconiza o diagnóstico precoce de lesões, incluindo a parte hormonal. O preparo físico do atleta sempre é com sobrecarga, em tendões, músculos, cartilagens”, conclui. Saúde mental e depressão Para o fisioterapeuta Márcio Renzo, com pós-graduação em psicologia e psicanálise, o caso de Ashleigh Barty lembra os de outros atletas que causaram espanto ao admitirem dificuldades em suas carreiras. “O caso dela é bem parecido com o do nadador Michael Phelps”, compara. O americano, que conquistou 37 recordes mundiais, não escondeu suas fraquezas. “Na Olimpíada de 2016, ele ganhou cinco medalhas de ouro e foi quando ele se pronunciou sobre a depressão que vinha sentindo e, neste ano, teve até pensamentos suicidas”, cita. “E como imaginar que um atleta como Michael Phelps, com 28 medalhas olímpicas, 23 de ouro, tem problemas de depressão? Ele é uma referência do esporte de alta performance, mas teve o problema também”, diz Renzo, antes de citar outro exemplo marcante. “A Simone Biles, com toda a expectativa que foi colocada em cima dela na Olimpíada de 2020, teve este mesmo problema, desistiu por causa da saúde mental”, acrescenta. Preservar a saúde mental foi o principal motivo que fez a atleta da ginástica artística dos Estados Unidos Simone Biles desistir de cinco finais nas Olimpíadas de Tóquio. A ginasta diz ter abandonado a competição para não afetar o desempenho das companheiras de equipe. “O problema está na idealização. Você acha que o atleta de alto nível tem a mente blindada, mas, na verdade, há uma subnotificação muito grande porque é um tabu essa questão da saúde mental na sociedade e dentro do esporte mais ainda”, comenta o especialista. Renzo observa que o peso maior recai sobre atletas de modalidades individuais. “Quando você tem um fracasso no coletivo, você acaba diluindo entre as pessoas, enquanto no individual, ela acha que a culpa de não alcançar as metas é toda dela”, afirma. “A partir da Olimpíada de Tóquio a questão da saúde mental ficou mais nítida e o Comitê Olímpico distribuiu cartilhas informando sobre essa situação. E a gente vê como as federações americanas e inglesas tinham profissionais de saúde mental nas equipes”, observa. Outra questão, alerta Renzo, é a pressão de patrocinadores. “Essa coisa de o atleta não poder falar porque pode ser prejudicado na carreira, colocado no banco, muitas vezes, ele acaba deixando o problema de lado. E tem a questão do patrocínio também. Assumir essa fraqueza, ter uma redução do seu desempenho, acaba tendo reflexo na questão financeira”, diz. O especialista ensina a identificar os primeiros sinais de que algo não vai bem. "Os sinais são que os atletas começam a sentir aquele quadro depressivo, ou ficam ansiosos ou estressados demais. Demonstram irritabilidade. E eles tendem a acabar caindo para o uso de substâncias", diz o fisioterapeuta. "A equipe técnica tem que ter uma preocupação maior, tratar o atleta como uma pessoa. Valorizar o ser humano por trás do atleta", acrescenta. “Um pouco de ansiedade é normal, mas quando chega a desenvolver síndrome do pânico e outros quadros ansiolíticos e isso começa a afetar o rendimento, ele deve procurar ajuda profissional”, conclui.



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