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Canetas Emagrecedoras: Efeitos Psicológicos e Considerações Psicanalíticas

Atualizado: 17 de ago.

A coqueluche do momento são as canetas emagrecedoras. Muito se tem falado sobre o tratamento, seus benefícios e os possíveis riscos associados à química do produto. Mas e sobre os efeitos psicológicos que a utilização de tais produtos pode causar?


Estudos com tirzepatida, princípio ativo de uma das canetas, mostram grande eficácia em perda de peso e controle glicêmico. No entanto, também revelam efeitos psicológicos adversos significativos, como alterações de humor, imagem corporal e relação com a comida. Compreender esses efeitos exige articular dados biomédicos, psicanálise e debate público.


Visão Clínica e Efeitos Psíquicos Relatados


A tirzepatida atua em receptores GLP‑1 e GIP no intestino, pâncreas e cérebro. Esses receptores participam do processo cerebral de recompensa e saciedade. Essas intervenções podem alterar a motivação, o prazer e a regulação emocional.


Pessoas que utilizaram a medicação relatam algumas alterações importantes, como humor deprimido, ansiedade, fadiga, “apagamento” do desejo de comer, estresse pelo manejo de efeitos gastrointestinais, restrição calórica, custos elevados e medo de complicações. Todos esses sintomas podem colaborar ou até iniciar quadros depressivos e ansiosos.


Como a Psicanálise Vê os Efeitos do Uso da Medicação


Do ponto de vista psicanalítico, a tirzepatida interfere diretamente na diminuição pulsional ligada à oralidade e ao prazer de comer. Essa interferência cria “uma confusão” nos modos de satisfação que a pessoa estruturou ao longo de sua vida.


A redução drástica do “food noise” e das compulsões alimentares, que muitos pacientes relatam como libertadora, pode também produzir um vazio. Isso resulta em uma queda de investimento libidinal e na sensação de estranhamento em relação ao próprio corpo. Essa situação pode levar o paciente a reativar conflitos com o ideal de eu e com o superego moral magro, trazendo fantasias de controle onipotente sobre o corpo.


Riscos, Transtornos Psíquicos e Debate na Mídia: Como Nos Afeta?


Diversos estudos têm descrito o risco de agravamento ou surgimento de quadros de depressão, ansiedade, transtornos alimentares e estresse intenso em pacientes. É importante salientar que, apesar dos testes não terem mostrado uma alta incidência de quadros de depressão maior, a necessidade de uma avaliação caso a caso é fundamental.


Quando se observa a literatura relacionada aos transtornos alimentares, percebemos que o uso do GLP‑1 traz alívio relacionado às compulsões. No entanto, pode reforçar padrões restritivos, obsessão com peso e distorção de imagem. Dessa forma, o acompanhamento psicológico é essencial.


A ampla divulgação de matérias jornalísticas sobre as chamadas “canetas milagrosas” tem estimulado a automedicação e o uso do mercado ilegal para aquisição. Infelizmente, isso pode levar a eventos mais graves, incluindo mortes em apuração, e possíveis impactos diretos na saúde mental das pessoas que utilizam este medicamento.


Observa-se também um grande número de pessoas utilizando a medicação sem indicação formal, incluindo crianças e adolescentes pressionados pelo ideal de magreza ou pela irresponsabilidade dos tutores legais.


Em resumo, o uso de canetas emagrecedoras exige uma avaliação rigorosa para riscos psíquicos, acompanhamento psicoterápico (incluindo abordagens psicanalíticas) e uma indicação que vá muito além de um número na balança.


Efeitos Colaterais e Saúde Mental


As canetas emagrecedoras têm efeitos colaterais que podem potencializar transtornos psíquicos. Ao observar os efeitos colaterais da tirzepatida, encontramos predominantemente efeitos gastrointestinais. Contudo, como outros fármacos que atuam no cérebro e no metabolismo, também podemos encontrar queixas de fadiga, náuseas persistentes, tontura, alterações do apetite, insônia e oscilações de humor. Esses efeitos podem prejudicar o bem-estar psicológico e agravar condições pré-existentes.


Esses sintomas físicos intensos e/ou prolongados podem causar aumento no estresse, piorar o sono e desencadear quadros de ansiedade secundários. Além disso, há um aumento na irritabilidade e sensação de incapacidade, especialmente em pessoas com vulnerabilidade pré-existente.


A interferência da medicação no equilíbrio dos circuitos de recompensa e saciedade, semelhante a outros psicofármacos, pode alterar o prazer, a motivação e a regulação emocional. Isso cria condições para a piora do estado de humor e ruminações.


Agravamento de Transtornos Preexistentes


Em indivíduos que apresentam quadros de depressão, Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), transtornos alimentares ou uso de drogas ilegais, a combinação de perda de apetite, emagrecimento rápido, insônia e estresse pelo tratamento pode agravar ainda mais os sintomas existentes. Isso pode aumentar o risco de recaída ou favorecer descompensações, especialmente se o uso for inadequado ou sem acompanhamento profissional.


O Uso das Canetas Emagrecedoras por Pacientes com Transtorno de Personalidade Borderline


O uso da substância presente nas canetas emagrecedoras (tirzepatida), embora não seja um psicofármaco, produz efeitos físicos e emocionais que podem interagir de forma delicada com a dinâmica psíquica apresentada por pacientes com Transtorno de Personalidade Borderline (TPB). Isso exige grande cautela clínica.


Efeitos Colaterais e Vulnerabilidade do Borderline (TPB)


Os efeitos colaterais mencionados podem agravar a instabilidade afetiva, a impulsividade e o sentimento crônico de vazio característicos do TPB. Isso amplia o risco de autolesão, uso abusivo de substâncias e desorganização do cotidiano. Para pessoas com TPB, o corpo frequentemente se torna um palco de sofrimento psíquico. Mudanças corporais abruptas, como as provocadas pelo uso das canetas emagrecedoras, podem intensificar crises de identidade, medo de abandono e comportamentos autodestrutivos.


Critérios e Monitorização em Pacientes com TPB


A prescrição para pacientes com TPB deve seguir o mesmo rigor de indicação de qualquer farmacoterapia. É fundamental que a indicação seja clara, como, por exemplo, diabetes tipo 2 ou obesidade com critérios definidos. Além disso, deve ser submetida à avaliação psiquiátrica prévia e acompanhamento dos sintomas presentes no transtorno, principalmente relacionados à alteração de humor, impulsividade e ideação suicida.


Como o tratamento principal do TPB é psicoterápico, com uso de medicamentos apenas para sintomas associados, qualquer fármaco que altere peso, sono ou nível de energia precisa ser introduzido com planejamento interdisciplinar. Isso envolve comunicação entre endocrinologista e psiquiatra, além de orientação detalhada ao paciente e à família.


Em resumo, a utilização das canetas emagrecedoras em pacientes com TPB não é contraindicado de forma absoluta. No entanto, seus efeitos colaterais podem potencializar sintomas centrais do transtorno. Dessa forma, é indispensável uma prescrição prudente, vigilância estreita e suporte psicoterápico contínuo para o êxito do tratamento.


Busque sempre ajuda profissional em caso de dúvidas.

 
 
 

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