top of page

Dermatilomania: quando a pele fala o que a mente tenta calar

Por Dr. Marcio Renzo – Psicanalista e Hipnoterapeuta

Imagem: Criada por IA
Imagem: Criada por IA

A dermatilomania — também conhecida como transtorno de escoriação — tem ganhado cada vez mais visibilidade em publicações científicas e na imprensa, especialmente a partir de estudos conduzidos em centros como a USP, Unifesp, Harvard Medical School e King’s College London. Ainda assim, permanece um sofrimento silencioso, muitas vezes reduzido a um “hábito nervoso”, quando na verdade revela uma complexa dinâmica psíquica.

Do ponto de vista clínico, a dermatilomania se caracteriza pelo ato compulsivo de cutucar, beliscar ou ferir a própria pele, frequentemente resultando em lesões visíveis. A psiquiatria a classifica dentro dos transtornos do espectro obsessivo-compulsivo. Mas a psicanálise nos convida a ir além da classificação — ela pergunta: o que está sendo dito através da pele?


A pele como fronteira psíquica

Freud já apontava que o corpo é uma das primeiras vias de expressão do inconsciente. Mais tarde, autores como Didier Anzieu aprofundaram essa ideia com o conceito de “Eu-Pele”, sugerindo que a pele não é apenas um órgão biológico, mas também um limite simbólico entre o mundo interno e o externo.

Na dermatilomania, essa fronteira parece fragilizada. Em minha prática clínica, observo com frequência pacientes que relatam uma sensação difusa de angústia, vazio ou tensão interna, que encontra alívio momentâneo no ato de ferir a própria pele. Não se trata de vaidade ou descuido — trata-se de uma tentativa de regulação emocional.


Entre o controle e o desamparo

Estudos recentes publicados em periódicos internacionais, como o Journal of Obsessive-Compulsive and Related Disorders, apontam que muitos pacientes com dermatilomania apresentam histórico de ansiedade, traumas precoces ou experiências de negligência emocional. Essa associação também é reforçada por pesquisas brasileiras, especialmente nas áreas de psicodermatologia.

Sob a lente psicanalítica, podemos compreender o comportamento como uma forma de atuação (acting out). O sujeito não consegue simbolizar seu sofrimento — então o encena no corpo. A pele, nesse contexto, torna-se palco de uma luta interna: entre o desejo de controle e a vivência de desamparo.

Há, muitas vezes, uma dimensão autoagressiva importante. Não necessariamente consciente, mas presente como uma espécie de punição silenciosa. Em alguns casos, identifico também traços de vergonha profunda, especialmente quando o paciente tenta esconder as lesões, evitando contato social.


O paradoxo do alívio

Um aspecto central da dermatilomania é o ciclo paradoxal: tensão crescente → ato de escoriação → alívio imediato → culpa e vergonha → nova tensão.

Esse circuito reforça o comportamento e dificulta sua interrupção. A psicanálise, ao invés de focar apenas na supressão do sintoma, busca compreender sua função. Afinal, se o sintoma existe, é porque ele cumpre um papel na economia psíquica do sujeito.


Minha escuta clínica

Na minha experiência clínica, a dermatilomania frequentemente aparece associada a histórias de abandono emocional, relações familiares instáveis ou exigências internas excessivamente rígidas. São sujeitos que, muitas vezes, aprenderam a não expressar sua dor — e acabam inscritas no próprio corpo.

O trabalho terapêutico, nesse sentido, não é apenas “fazer parar de cutucar a pele”. É criar um espaço onde o sujeito possa simbolizar aquilo que antes só podia ser atuado. É transformar o ato em palavra.


Um olhar necessário da sociedade

A imprensa tem um papel fundamental na desmistificação da dermatilomania. Quando tratada com seriedade — como têm feito grandes veículos ao dialogar com a produção acadêmica — contribui para reduzir o estigma e incentivar a busca por ajuda.

Ainda há, no entanto, um longo caminho. Muitos pacientes demoram anos para procurar tratamento, seja por vergonha, seja por desconhecimento.


A dermatilomania não é apenas um comportamento compulsivo. É, muitas vezes, um grito silencioso inscrito na pele. A psicanálise nos ensina que, por trás de todo sintoma, há uma história — e que escutá-la é o primeiro passo para qualquer transformação real.

Se há algo que a clínica me ensinou, é que a cura não está na eliminação do sintoma a qualquer custo, mas na possibilidade de o sujeito se reconhecer em sua própria narrativa.

Porque, no fim, quando a palavra encontra espaço, o corpo já não precisa gritar.

 
 
 

Comentários


Post: Blog2_Post
bottom of page