O abandono psicológico – Como estamos criando nossa futura geração?
- Dr. Marcio Rogerio Renzo - Fisioterapeuta
- 23 de fev.
- 3 min de leitura

O abandono psicológico, dentro da visão psicanalítica, não se refere apenas à ausência física dos pais, mas à falha na função materna e/ou paterna enquanto sustentação emocional, reconhecimento simbólico e validação afetiva.
O bebê não nasce com um “eu” estruturado. O eu se constitui a partir do olhar, da palavra e da presença psíquica do outro primordial.
Quando há abandono psicológico, ocorre falha na função de holding (Winnicott), fragilidade na constituição do self, lacunas na simbolização das emoções e dificuldade na internalização de um objeto bom estável. Não é apenas “falta de carinho”. É falha na construção da base narcísica.
Efeitos do abandono psicológico
A criança depende do investimento libidinal dos pais para sentir-se existente.Sem esse investimento surge um narcisismo frágil, instala-se um sentimento crônico de não ser digno de amor e a partir forma-se um superego severo e persecutório.
A criança conclui inconscientemente: “Se não sou visto, é porque não tenho valor.”
Sob outra ótica, quando os pais são emocionalmente indisponíveis, isso traz instabilidade para a criança, um medo intenso de abandono, um apego ansioso ou evitativo, podendo na vida adulta surgir uma organização borderline. A ausência não elaborada transforma-se em angústia de aniquilamento.
A formação do ego dessa criança
O ego se estrutura a partir da mediação do desejo do outro. Sem essa mediação, a criança demonstra alguns sinais, como: dificuldades de regulação emocional, impulsividade, sensação de vazio crônico e dependência afetiva excessiva. Muitos quadros depressivos e borderline têm como base essa falha primária.
Principais sintomas na infância
Na clínica infantil, o abandono psicológico pode se manifestar como:
Sintomas emocionais | Sintomas comportamentais | Sintomas psicossomáticos |
· Tristeza persistente | · Agressividade | · Enurese (xixi na cama) |
· Ansiedade de separação intensa | · Isolamento
| · Dores recorrentes sem causa orgânica |
· Medo exagerado de rejeição | · Busca excessiva por aprovação | · Distúrbios alimentares
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· Baixa autoestima precoce | · Comportamentos regressivos |
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Reflexos na vida adulta
Quando não elaborado, o abandono psicológico pode gerar:
Relações amorosas marcadas por dependência ou evitação;
Medo crônico de rejeição;
Ciúme patológico;
Sensação de vazio;
Padrões repetitivos de escolher parceiros indisponíveis;
Estruturas depressivas ou borderline.
A compulsão à repetição frequentemente aparece como tentativa inconsciente de reparar o abandono original.
Como evitar o abandono psicológico
Não se trata de pais perfeitos, mas de pais suficientemente bons. Mais importante que a presença física é a escuta, a validação emocional e o reconhecimento do sofrimento infantil.
A criança precisa que seus afetos sejam nomeados: “Você está triste.”, “Eu entendo que isso machuca.”, isso organiza o mundo interno da criança.
Impondo limites estruturantes
A função paterna simbólica oferece contenção, lei e principalmente segurança. A ausência de limite também é forma de abandono.
Transferindo para gerações
Pais que não elaboraram seus próprios traumas tendem a repetir abandono emocional.Intervenção terapêutica dos pais é fator preventivo fundamental.
Abandono psicológico e o trauma
O abandono é um trauma relacional. Diferente do trauma pontual, ele é silencioso, crônico, invisível e relativamente naturalizado. Por isso é tão devastador. Na clínica, frequentemente encontramos pacientes que dizem: “Meus pais nunca me bateram.” Mas, emocionalmente nunca foram vistos.
O que a prática clínica mostra?
Considerando minha produção voltada à compreensão profunda do sofrimento psíquico, especialmente em quadros de instabilidade emocional e trauma, o abandono psicológico pode ser compreendido como um dos núcleos estruturantes do sofrimento contemporâneo.
A sociedade atual favorece:
Pais fisicamente presentes, mas psiquicamente ausentes;
Terceirização do cuidado emocional;
Substituição de vínculo por tecnologia;
Narcisismo parental projetado nos filhos;
Do ponto de vista clínico, o abandono psicológico aparece como:
Base estrutural de quadros borderline;
Núcleo depressivo profundo;
Origem de dependência afetiva;
Fonte de angústia de desamparo primário.
A abordagem, que integra psicanálise e técnicas de acesso ao inconsciente (como a hipnoterapia), pode favorecer:
Reacesso às memórias emocionais primárias;
Ressignificação de experiências de abandono;
Reconstrução do objeto interno;
Fortalecimento do ego fragilizado.
O abandono psicológico não é apenas uma falha parental — é uma falha na sustentação do sujeito em sua constituição. E, como sabemos na clínica, o que não foi simbolizado retorna como sintoma.
Se identificou? Busque ajuda profissional e tenha uma vida plena.



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